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Ingénua

Todos nós temos aquela fase em que dormimos de olhos abertos, fingindo que somos cegos sem querer ver ou saber  o que está acontecer à nossa volta. Poderia começar por insultar que os machos dizendo a famosa frase “são todos iguais” mas a verdade que hoje em dia tanto homem como mulher, enganam, usam os sentimentos dos outros para o seu próprio benefício. Oiçam a voz de quem já sofreu do passado, de quem já engoliu com cada sapo mas mesmo assim pretendeu que deliciava uma doce, momentos de adolescência ou até ingenuidade.
Uma vez, eu conheci um jovem isso aconteceu exactamente nos meus tempos de escola, muito antes de eu decidir viajar pra fora. Estava numa turma completamente nova, que por acaso uma colega da turma anterior também tinha decidido mudar e calhámos na mesma turma, ficamos logo “besties”, andávamos sempre juntas, partilhámos mesa e tal. Então estávamos simplesmente numa aula nem lembro-me direito qual, de repente bateram à porta, pois vieram introduzir o moço novo, apresentaram-no, sentou-se e continuámos a aula.
Os dias foram passando, e eu fui notando que o novato estava sempre a observar-me e os colegas faziam gracinhas e eu fingia, toda durona, que não estava nem aí pra ele o que era verdade, pois no meu coração sempre teve ocupado, por mais que eu tentasse fugir dessa ocupação (a famosa história). O moço era simples, maneira de ser, de vestir, sempre pareceu-me muito humilde, todas as manhãs cumprimentava-me com um bom dia e muito antes de eu passar, já ficava todo contente e sorridente, talvez fosse impressão minha mas pronto. E eu até gostava, pois não é todos os dias que o jovem bonito parece ficar entusiasmado só com a minha presença mas isso nem era nada, ninguém tinha coragem de dirigir a palavra, pois éramos ambos tímidos.
Lembro-me que nas aulas de inglês, elas eram tipo numa biblioteca e estamos sentados na mesma mesa com mais dois colegas e estávamos sentados frente a frente e não fazíamos contacto nenhum com os olhos, tanta vergonha. Nas aulas de educação física ele e o outro pretinho ficavam só observar-me e a comentar um pro outro, eu pretendia que nada se passava. Foi sempre assim, passou o primeiro semestre e eu fui embora, mudei de país e nunca mais falei com ninguém da turma nem muito menos a minha melhor amiga da turma.
Um ano passou, muita coisa mudou e eu quis recuperar alguns contactos, procurei da minha best na internet mas era um pouco mais complicado pois ela só tem email enviei-lhe mas não obtive nenhuma resposta. Encontrei de algumas colegas e daquele rapazinho, passando uns dias começamos a falar, ele disse que lembrava-se perfeitamente de quem eu era e também admitiu que tinha interesse por mim mas que eu não parecia ter e ele era tímido demais pra falar.
Chegou o dia que marcamos um passeio no parque para conversarmos melhor e a conversa fluiu tão naturalmente que passamos a estar juntos mais vezes. Ele dizia que eu era sua namorada mas eu só fazia cara de despercebida, pois nós nunca chegamos a ter essa conversa, lembro de ele ficar triste porque achava que eu não queria compromisso mas a verdade é que eu ficava de pé atrás porque ele nunca chegou a fazer o pedido.
Corria tudo lindamente, eu comecei a ir mais vezes na casa dele, conheci até a sua mãe (um amor de pessoa) e do nada, afastamo-nos já quase nem fazíamos chamadas ou mensagens e cada vez nos víamos menos. Houve um momento que decidi ligar só para cumprimentar e ele me diz que vai trabalhar pra fora durante uns tempos, até aí tudo bem.
Já estávamos à um ou dois meses sem nos ver mas mesmo assim pensava que ainda estávamos juntos, no meu aniversário recebi uma chamada dele a desejar-me os parabéns e tudo de bom. Umas semanas mais tarde ele ligou-me e eu toda contente a pensar que ele tinha saudades minhas e afinal, era a outra miúda a perguntar quando é que a gente terminou, fiquei em choque simplesmente desliguei a ligação. Depois mais tarde ela guardou o meu número e trocámos mensagens a esclarecer tudo, concluindo que afinal no tempo que a gente se afastou, ele tava com ela e no próprio dia que eu fazia anos, ela estava deitada ao seu lado, que dor.
Mas a gente até ficamos bem porque ambas não sabíamos, o culpado era ele. Depois de eu enviar-lhe umas mensagens agressivas a falar tudo o que penso e ele sem respeito tratou-me bué mal, ficamos meses e mais meses sem contacto.
E de repente engoli o meu orgulho e fui falar com ele, não diria que eram saudades mas como estávamos os dois solteiros poderíamos conversar melhor. Voltei a ver-lhe no dia que fui à praia com os meus primos, e quando ele chegou fui dar-lhe um oi e voltei pró pé deles, ainda era cedo e a praia não estava cheia mas o dia estava tão lindo, foi super relaxante.
Mais tarde ele enviou-me mensagem a dizer que adorou ver-me que tinha saudades e queria estar comigo. E pronto recomeçamos tudo de novo mas desta vez eu não queria nada sério, ficamos nesse bem bom durante uns tempos, até chegar um dia que a gente discutiu por uma parvoíce. Simplesmente fiquei chateada porque não estávamos juntos à muito tempo e nesse mesmo dia os amigos dele apareceram-me lá em casa, passado uns minutos fui embora, não era esse o plano. Na saída tinha lhe dado a dica a ver se ele arranja mais tempo para mim e nem reparei que ele ficou chateado também. Uns dias depois liguei-lhe duas vezes só pra saber como está, nem atendeu mandei mensagem a perguntar o que se passa, aí ele respondeu a dizer que eu sei o que estava acontecer, depois não respondeu mais, enviei outra a dizer que se ele está a brincar comigo é melhor acabarmos com isso, toda chateada.
Houve um dia enquanto eu estava a ir pra escola, encontrei-me com a mãe dele, ela estava a reclamar a dizer que nunca mais fui lá, eu respondi que eu e ele estávamos chateados, então ela convidou-me para ir na mesma, só pra conviver com ela um pouco mais.
Marcámos um fim de semana, eu toda nervosa, fui lá e ela nem estava preparada pra mim, tinha ido num bar à noite por isso ainda estava a dormir quando cheguei mas que não tinha problema nenhum, ela meteu uma pizza no forno para nós, bebemos uns copos, eu até fiz bolo e levei, foi uma boa tarde. O filho dela passou amanhã toda fora de casa, se calhar sabia que eu vinha e fez de propósito. Do nada oiço o barulho da porta e era ele, meu coração acelerou, ele disse um “boa tarde” de longe e foi para o quarto, a mãe dele teve que ir pra cozinha e ele aproveitou veio pra sala, falar comigo saber se ta tudo bem e depois voltou pro quarto. Depois a mãe dele voltou e perguntou se a gente conversou e eu disse mais ou menos, ela sugeriu pra ir falar com ele melhor e fui.
Cheguei no quarto dele sem saber por onde começar, expliquei que eu nem sabia que ele tinha ficado chateado comigo desde da última vez que estávamos juntos e ainda acrescentei que eu estava chateada porque sentia que ele só tinha tempo para os amigos e que até a mãe dele reclamava do mesmo. Parecia que já estava a ficar tudo bem, começamos com os mimos e acabámos deitados, para depois ele contar-me que mais uma vez meteu outra entre nós, que ela é parecida comigo e que gostava dele à muito tempo e ainda pediu-me para passar a noite?! Pessoas sem vergonha na cara, traíu-me e eu burra ainda fui aceitar, estava a chorar mesmo e a desabafar com a minha amiga ao mesmo tempo por mensagem. Ele teve que ir à rua, e eu fui pra sala ter com a mãe dele e ela perguntou se tinha corrido bem e eu contei-lhe tudo e ainda disse que ia dormir lá hoje. Mas acabei por mudar de ideias, graças a minha amiga pois não fazia sentido depois dessa falta de respeito acabar por dormir lá mas já nem tava a pensar direito.
Decidi ir pra casa, a mãe dele levou-me para a paragem e eu nem lhe avisei que fui embora. Cheguei a casa fui diretamente pro quarto, a mãe dele mandou mensagem pra saber se cheguei bem e apartar daí nunca mais dirigi-lhe a palavra. Dias sem falar, chegou o dia 14 de fevereiro e adivinha quem ligou-me? Ele! Nem atendi.


(...)

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